No dia 25 de agosto de 2026 celebra-se a memória litúrgica de Santa Maria Troncatti, missionária de paz e de perdão, que continua a falar nos tempos difíceis contemporâneos.
Sucúa, Equador, 1965. Num cartão-postal dirigido à irmã Catarina, Irmã Maria Troncatti, FMA (Corteno, 16 de fevereiro de 1883 – Sucúa, 25 de agosto de 1969), então com 82 anos de idade e 43 anos de vida missionária, escreve: “Veja como estou bem… Estou sempre mais feliz por ser missionária!” Quatro anos depois, em 25 de agosto de 1969, Irmã Maria morre num acidente aéreo. Ofereceu-se como vítima pela reconciliação entre Shuar e colonos, depois de se dedicar completamente ao anúncio do Evangelho, à promoção, ao cuidado e à educação de meninos e meninas, mas também de mulheres, homens, doentes, idosos, família.
Por ocasião de sua memória litúrgica, a primeira em que será festejada como “santa”, a mensagem de paz e perdão, de coragem e empreendedorismo, inspirado no Evangelho e no carisma salesiano de Santa Maria Troncatti, é extremamente atual.
Quando Irmã Maria foi enviada como missionária, em 1922, os Salesianos e as FMA já estavam no Equador por diversos anos, mas ainda não tinham conseguido se estabelecer na Amazônia equatoriana. Irmã Maria, outra FMA e uma noviça, em dezembro de 1925, chegaram a Macas, junto a um grupo de salesianos: a missão da “madrecita buena” expressa-se desde então de maneira sempre mais incisiva.
Na Selva Amazônica, Irmã Maria encontra os Shuar, uma etnia concentrada numa pequena região do Equador, atravessada longitudinalmente pela cordilheira do Cutucu, áspera e densa de florestas, que com seus mais de 2.000 metros de altitude, constituiu, ao longo da história, para os indígenas estabelecidos em suas encostas orientais, uma defesa natural contra a colonização dos “brancos”. Mais facilmente eram alcançados pelos “brancos” os Shuar estabelecidos na parte ocidental, no vale do Upano e do Paute, assim como no noroeste, no vale do rio Zamora.
Foi justamente nessa região, mais próxima da fronteira da colonização, que se desenvolveu a ação missionária dos Salesianos e das Filhas de Maria Auxiliadora.
Irmã Maria e os missionários salesianos, chegados ali, encontravam-se diante do imperativo absoluto da vingança e do infanticídio, que eram lei entre os Shuar daqueles tempos. Para eles, a vida tinha como finalidade primária conseguir realizar a vingança. Também a educação das crianças apresentava como ideal supremo tornar-se bons guerreiros e hábeis caçadores. Desde a mais tenra idade, recebiam uma verdadeira educação à vingança, através de uma escola do ódio. No início de cada dia, o pai de família, sentado solenemente no kutangka, ou banqueta principal, dizia: “Tenho filhos para que me vinguem, esse é o maior de seus deveres”. Por isso, semear terror ao seu redor, preparar o filho para vingar o pai e os antepassados constituía um ponto de honra. Ao contrário, era considerado covarde o filho que não vingava seu pai. Vingar um parente assassinado era, para o Shuar, um dever “sagrado”, para aplacar a ira e as reações maléficas do seu espírito errante sem descanso.
Por isso, o estado de guerra entre os Shuar era uma situação habitual: sempre havia, em cada família, uma vingança a ser consumada.
Assim se explica o costume de matar o recém-nascido com alguma deficiência, pois ele não corresponderia ao ideal de força física e não seria autossuficiente. Muitas vezes era o próprio pai que o eliminava, atirando-o contra as pedras do leito de um rio. A mesma sorte era reservada a recém-nascidos indesejados, como os filhos de adultério e os filhos de mães solteiras, quando a própria jovem não era expulsa de casa assim que sua gravidez era descoberta.
À porta do botiquín – o pequeno dispensário em que prestava atendimento médico – Irmã Maria recebia vítimas de envenenamentos, feridos, meninas e adolescentes que fugiam de conflitos familiares, mulheres golpeadas com machados por maridos violentos ou embriagados… e também os pequenos indesejados, os recém-nascidos órfãos devido ao envenenamento da mãe. A esses “pequenos do Reino” dedicava um amor de predileção. Quantos “salvamentos” Irmã Maria realizou, com a colaboração de boas colonas e também de jovens mães shuar já catequizadas, é difícil determinar, mas muitos, anos depois, apresentaram-se como “parentes de Irmã Maria”.
O salesiano Padre Giovanni Vigna, que tinha noções de medicina, recorda com admiração Irmã Maria e seus cuidados “obstinados” na cura de casos desesperados, utilizando remédios improvisados e a oração, com “ilimitada” confiança em Deus. E a descreve entre “fazer ‘negócios’ e ‘compra’ das crianças não aceitas nas famílias shuar, ou destinadas a morrer porque o feiticeiro não podia curá-las; por elas, Irmã Troncatti não poupava oração, dedicação e todo cuidado possível.
Artesã de paz e de reconciliação, Irmã Maria defende a dignidade da vida e da pessoa. Sua ação, junto à de tantos missionários, suscitava hostilidade. Como todo discípulo do Senhor Crucificado e Ressuscitado, aceita a lógica messiânica: “Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,3-12).
Uma FMA que viveu com Irmã Maria conta que o clima, sobretudo a partir de 1967, tornou-se super inflamados: “Os colonos, incitados por alguns agitadores antirreligiosos, gritavam: “Abaixo os padres e as freiras! Matem-nos, matem-nos!”, mas Irmã Maria nos tranquilizava com sua habitual serenidade”.
Na noite de 4 de julho de 1969, um incêndio destruiu a missão salesiana. Para se salvar, os Salesianos foram obrigados a saltar da varanda. Diante desse fato e no clima de violência daquele período, Irmã Maria dizia: “Ficarei muito feliz se puder oferecer a minha vida para que a paz possa voltar a este povo”. Sofria muito com aquela situação, rezava e semeava serenidade. Os testemunhos afirmam que pedia à Virgem Maria que aceitasse sua oferta para que cessasse todo conflito.
Testemunha uma coirmã: “Os Shuar de Sucúa compreenderam que a causa do incêndio, indiretamente, eram alguns colonos. Foram até Irmã Maria com suas lanças e carabinas, declarando que, se alguém lhe fizesse algum mal, eles agiriam contra os colonos. E Irmã Maria: ‘Nós vos ensinamos a ser caridosos e a perdoar as ofensas. Se realmente me amam, colocai vossas armas aos meus pés!’ Foi então que aquele que liderava o grupo gritou, e todos depuseram suas armas aos pés da irmã”.
As irmãs recordam as últimas palavras de Irmã Maria: “Filhas, não tenhais medo ou temor por tudo o que aconteceu; deixemos tudo nas mãos de Deus e peçamos a conversão dos malfeitores. Permanecei em paz! Rezai à Virgem Auxiliadora e vereis que esta ansiedade não durará muito: muito em breve chegará a tranquilidade e a calma, vos asseguro!”
O arco-íris que apareceu no dia de seu funeral selou a paz restabelecida. Esse arco-íris é o sinal que Santa Maria Troncatti deixa hoje ao mundo ferido por conflitos e violências de todos os tipos: a paz implica sempre a coragem evangélica do perdão e da não violência.



